Sinopse Aqui!
O propósito da leitura deste
livro adveio do de um dos meus desafios literários deste ano: ler um livro por
mês de um autor português.
Assim, uma vez que nunca tinha
lido nada do escritor António Alçada Baptista e como o livro é pequeno no que
respeita ao número de páginas, resolvi arriscar nesta leitura e arrisquei bem.
Relatado na primeira pessoa,
apesar de nunca ser mencionado o seu nome, este livro é constituído por três
partes: na primeira parte, o narrador fala de uma história passada com o Dr.
Júlio Fernandes da Silva e a sua esposa, uma história que envolve a morte de
ambos e que, segundo o que as pessoas pensavam, tratava-se de suicídio.
Na segunda parte surge, a meu ver,
o tema principal do livro: o estabelecimento da relação entre o narrador e a
Tia Suzana. O jovem após ter ficado órfão e de o seu tio Gaudêncio ter morrido,
mudou-se para casa da tia Suzana a seu pedido. A tia Suzana até ao dia da sua
morte, ensinou-lhe tudo o que era a vida. Mas nunca o "prendeu", ela
queria que ele vivesse a sua vida. Abriu -lhe o seu coração e contou-lhe
histórias da sua vida que ninguém mais iria saber senão ele, mas também gostava
bastante das histórias que o sobrinho lhe contava. O jovem era tratado de uma
forma muito carinhosa, recebia conselhos, a sua tia estava sempre com um
sorriso nos lábios para ele, ele sempre disse que a tia Suzana era diferente
das outras mulheres, não tinha invejas nem guardava rancores a ninguém. Era uma
senhora muito simples, com um grande coração.
Na terceira e última parte do romance, vem a decifração do mistério,
do suposto suicídio. Um final emocionante que vem dar um novo rumo à acção
principal do livro.
Um excerto do livro de que eu
gostei particularmente foi o que se relaciona com os livros, uma das paixões
que a Tia Suzana e o narrador partilhavam: “ Os livros são bons porque, sempre que nos sentimos sós e não temos
coisas para dizer a nós mesmos, podemos falar com eles. Sabes, eu acho que as
pessoas desejam viver muito e vivem pouco. Com os livros, a gente sempre faz
viagens, conhece pessoas, aprende a interrogar-se e tem oportunidade de viver e
de sentir coisas que a vida não lhe deu. Outras vezes penso o contrário: que os
livros entretêm a nossa fome de viver e se calhar disfarçam e adiam a obrigação
de procurar a vida” p.52 e 53.
António Alçada Baptista, neste
romance, infere (com um certo sentido de humor até) sobre diferentes questões
culturais, sociais e ideológicas bastante interessantes: a condição feminina
num meio provinciano ("Se calhar, a
província era uma espécie de Caiena só com mar e tubarões à volta de cada prisioneira.
Mas elas andavam todas certinhas e convencidas de que aquilo era mesmo uma vida
e um destino", p. 14); uma visão irónica sobre uma sociedade fechada
assim como a relação com Deus e a morte.
Em suma, esta leitura foi
surpreendente e despertou-me bastante a curiosidade sobre o autor e, na
pesquisa sobre a sua vida, descobri uma descrição bastante interessante da sua
obra que está, irremediavelmente, inserida neste livro “Tia Suzana, meu Amor”: “A vida e a obra de António Alçada Baptista
estão profundamente ligadas aos valores da liberdade e à cultura dos afectos. A
vida foi uma das suas grandes obras e, através da obra escrita, exprimiu, de
forma única, a vida. Por isso, a sua mensagem está tão presente e a sua obra
será sempre actual”.
Um livro para ler e descobrir!

