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Gradiva| 540 páginas|22€ |
Como já referi em diversos comentários, sou fã dos romances de José Rodrigues dos Santos, nomeadamente aqueles que retratam um pouco da História do nosso país.
Após as leituras de livros como "A Filha do Capitão", " A Ilha das Trevas", " O Anjo Branco", "A Vida num Sopro", surgiu-me a oportunidade de ler " O Homem de Constantinopla" e posteriormente" Um Milionário em Lisboa" e fiquei, mais uma vez, rendida!
Contudo, devo confessar que, ao contrário da leitura, escrever esta crítica não foi uma tarefa simples, na medida em que são variados os pontos a focar e é necessário empenho e foco para dar o devido valor a estes dois livros ( "O Homem de Constantinopla" e "Um Milionário em Lisboa") que se complementam, assim como ao autor dos mesmos.
Nos romances que li anteriormente de José Rodrigues dos Santos, as personagens são, na grande maioria, ficionais, apesar do cerne da narrativa se basear sempre em factos reais.
Em "O Homem de Constantinopla" deparamo-nos com uma narrativa mais exigente e, a meu ver, também mais interessante, uma vez que retrata a vida de um homem particularmente importante na sociedade portuguesa: Kaloust Gulbenkian.
Neste primeiro livro, a história centra-se na infância de Kaloust (nascido em 1869) em Constantinopla e a descrição realista e dramática de um país em guerra: Arménios por um lado e Turcos por outro e o ódio que estes últimos detinham contra os cristãos.
São factos históricos marcantes, tanto para o povo arménio como para Kaloust. Esta realidade aliada ao autoritarismo e exigência da sua educação, sobretudo pela mão do pai, moldaram fortemente a personalidade do pequeno Kaloust, cuja evolução vamos acompanhando a passo a passo, em página em página.
A minuciosidade conferida às descrições político- sociais de finais do século XIX não tornam, ao contrário do que se possa pensar, o livro maçador ou enfadonho. Pelo contrário, para mim foram uma fonte de aprendizagem e de reflexão.
Até ler este livro pouco ou nada sabia sobre Gulbenkian, confesso a minha ignorância. Tinha conhecimento que foi um homem ímpar no seu tempo e de alguma forma marcante em Portugal, ou não tivesse uma fundação em seu nome ( e que já tive a oportunidade de visistar em variadas ocasiões).
À medida que vai crescendo, Kaloust torna-se um jovem e mais tarde um gentleman de hábitos enraizados e com uma personalidade muito forte. Obstinado em algumas ocasiões e teimoso noutras, não deixava os seus negócios em mãos alheias e ambicioso quanto baste lutou sempre pelos seus objectivos, nunca descurando os seus valores.
"O Homem de Constantinopla" para além de biográfico e fonte de hábitos e costumes de uma época com uma base histórica precisa, é também um "desfile" de personalidades concentuadas e que privaram com Kaloust, tais como Nobel, Shell ou Riz, entre outros.
Paralelamente, acompanhamos o personagem principal em viagens por todo o mundo e sobretudo na Europa, levado pelo Expresso do Oriente a Paris, Londres, Constantinopla, entr outros.
Saliento, ainda, duas particularidades do livro que me cativaram: em primeiro lugar, a originalidade de estarmos a ler os manuscritos deixados por Kaloust ao mesmo tempo que o seu filho ( tanto "O Homem de Constantinopla" como "Um Milionário em Lisboa" são dois manuscritos de memórias deixado pelo próprio Kaloust ao filho). Do meu ponto de vista esta introdução ao livro foi uma ideia genial de José Rodrigues dos Santos e que me despertou ainda mais o interesse.
Em segundo lugar, marcou-me também a profundidade da pergunta que "atormentava" constantemente Kaloust: " O que é a beleza?" - uma questão profunda e subjectiva que chama a atenção do leitor para a importância das pequenas coisas e para o verdadeiro sentido da vida e daquilo que nos rodeia.
Este livro foi uma agradável surpresa, muito bem escrito e estruturado, que me prendeu da primeira à última página, deixando-me curiosa para a continuação da história em "Um Milionário em Lisboa". É um livro que aconselho vivamente!
Classificação: 7 - Excelente.
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